HISTORIA NATURAL

HISTORIA

NATURAL

ILLUSTRADA

COMPILAÇÃO FEITA SOBRE OS MAIS AUCTORISADOS TRABALHOS ZOOLÓGICOS

JXJLIO IDE 3>va:-A.TTOS

PRIMEIRO VOLUME

PORTO LIVRARIA UNIVERSAL

DE

I>(IA.Ca-AXiI3CÃ.ES & I^Ol^IZ EDITORES

18— Largo dos Loyos— 14

^^ói^ARY

Porto Imprensa Commerclal Rua dos Lavadouros, 16.

Prefacio

Les Sciences ne peuvent être ni bien cultivées ni bien senties, lorsqu'elIe8 sont conoentrées en- tre les mains d'un petit nombre. . .

Ceux qui aiment et admirent les sciences, doi- vent souhaiter que leurs élémeuts soient à la por- tée de tous.

W. Hbrschel.

Ao lado da publicação destinada a expor as mais minuciosas obser- vações do sábio ou as mais subtis especulações do pensador, existe actualmente em todos os paizes o livro que, acceitando somente o que está discutido e demonstrado, propaga a sciencia dando-lhe a forma mais accessivel ao geral dos espíritos. E o livro, assim comprehendido e exe- cutado, corresponde a uma justa e inilludivel necessidade moderna; desde que o fim de todas as lucubrações é, directa ou indirectamente, o aper- feiçoamento do homem, a sciencia não pode, como nas sociedades anti- gas, constituir hoje o privilegio de uma classe ou o monopólio de um pequeno grupo.

N'este ponto de vista nos collocamos, emprehendendo a publicação de uma Historia Natural. O nosso intuito não é fornecer ao mundo scientifico descobertas originaes ou discussões sobre pontos controverti- dos; levamos somente em vista collocar no mercado litterario portuguez uma racional compilação de quanto sobre o assumpto teem cscripto sá- bios como Brehm, Buffon, Figuier, Milne Edwards e tantos outros. Que o publico interessado nos progressos constantes da historia natural possua um livro que lhe refira conscienciosamente o estado actual da sciencia n'esta ordem de trabalhos; que elle encontre n'uma obra de fácil acquisição, reunidas e methodicamente condensadas todas as noções pra- ticas e especulativas sobre os animaes que, por utilidade immediata e

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directa, mais lhe importa conhecer; que os amantes da litteratura, fi- nalmente, encontrem uma justa satisfação das suas tendências na descri- pfão exacta e correcta da natureza viva, tão variada sempre e tão fér- til de encantos, tal é o fim que nos propomos servir.

O êxito assombroso que as obras d'esta natureza teem conse^do na AUemanha, na Inglaterra e na França, provando incontestavelmente que ellas satisfazem uma profunda aspiração do publico, garante a legi- timidade do nosso emprehendimento.

A sua opportunidade parece-nos egualmente provada. A renovação por que está passando actualmente o espirito publico portuguez, impor- tando o justo descrédito do livro inútil, da noveUa sentimentalista, do drama de phantasia sem intuito social, emfim de todos os productos ar- tísticos vasados nos moldes do romantismo, que hontem se admiravam e hoje se combatem como elementos dissolventes, prejudiciaes, implica o dever de substituir essa litteratura morta, exânime, por uma litteratura viva, útil, instructiva. Importa servir a corrente da mentahdade moder- na, fornecendo ao publico a leitura productiva, o livro que ensina, a obra que edifica e melhora o espirito. N'este sentido pois, a pubhcação que vamos encetar, representa ainda a satisfação d'uma necessidade urgente pelo meio mais apropriado: o ensino das coisas naturaes. É pela clara comprehensão do que nos cerca, pela apreciação scientifica da natureza que a nossa intelligencia se prepara para receber facilmente a disciplina salutar d'uma philosophia abstracta; é pelo exame das coisas naturaes que chegamos a crear os maiores interesses especulativos; é pelo estudo emfim da historia natural que conhecemos o logar exacto que na creação nos compete, evitando por tal conhecimento as illusões psychologicas que fazem do homem um ser excepcional e incomprehensivel na origem, nas funcções superiores, na finalidade.

Sob o ponto de vista pratico, a utilidade da obra parece-nos incon- testável, porque á historia natural estão reservados problemas do mais alto interesse para o commercio e para as industrias. Determinar o fim a que devemos apropriar as diíTerentes espécies d'animaes; precisar den- tro de que limites podemos tornal-os collaboradores das nossas empre- zas industriaes; indicar os recursos que d'elles podemos tirar, mesmo quando mortos, pela exploração fabril das suas lãs ou das suas pennas, etc, são outros tantos problemas, que interessam grandemente ao in- dustrial e ao commerciante.

Os trabalhos que nos serviram de modelo á concepção d'esta obra de caracter essencialmente descriptivo, são sobretudo os dos vulgarisa- dores que nomeamos. Como elles, prescindimos de expor e discutir al- gumas hypotheses actualmente controvertidas nos domínios da philoso- phia natural. As concepções theoricas e puramente abstractas trazidas á

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Zoologia e â Botânica por Darwin, seguidas e divulgadas por Wallace e Haeckel, brilhantes sem duvida, destinadas talvez, como pensam muitos, a conquistar definitivamente o campo inteiro das sciencias naturaes, per- tencem comtudo ainda hoje aos domínios da hypothese e da discussão. Não podemos tratal-as aqui; outra, muito differente do que é, teria de tornar-se a Índole d'esta obra se quizessemos tental-o. Somente, como dos novos trabalhos da escola transformista resaltam princípios e theses que são desde acquisições indiscutíveis da sciencia, faremos d'elles a exposição que lhes é devida como a doutrinas positivas e demonstradas. Estão n'este caso os princípios da hccta pela vida e da selecção natmrU, justamente considerados os mais seguros e os mais fecundos da historia natural moderna.

Porto, 20 de Outubro, 1880.

08 mamíferos

CONSIDERAÇÕES GERAES

... les pias ntiles ponr notre nourriture, pour nos travaux, pour les soins de notre indastrie.

L. FlQUIER.

Antes de encetarmos o estudo particular de cada um dos animaes que compõem o vasto grupo dos mamíferos, cremos indispensável esta- belecer, seguindo o exemplo dos escriptores mais auctorisados, um certo numero de considerações geraes que permittam ao leitor distinguir fa- cilmente na longa serie zoológica os exemplares d'este grupo. Expor os caracteres differenciaes e as qualidades communs de uma dada classe, qualquer que seja a classificação de que se trate, é o primeiro dever de quem vulgarisa, porque corresponde precisamente á primeira neces- sidade de quem estuda: conhecer nos seus lineamentos geraes o assum- pto que particular e minuciosamente se estudará mais tarde.

Para maior commodidade do estudo exporemos, á maneira de Brehm, separadamente ou por secções, os pontos de vista estáticos e dynami- cos que offerecem elementos de differenciação ou melhor caracterisam a grande classe.

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ESQUELETO

Os mamiferos, como todos os vertebrados *, possuem um esque- leto interno formado de partes duras: ossos e cartilagens. É da grandeza, do numero, do agrupamento d'estas partes que depende, quasi exclusi- vamente, a configuração exterior do animal; as proporções gigantescas do elephante ou do camello e o tamanho diminuto do morcego, o garbo do cavallo ou do leão e a deselegancia do urso, da hyena, a attitude ras- tejante da toupeira e a posição erecta do homem, tudo se subordina á forma e disposição relativa das partes duras.

O esqueleto pode considerar-se nos mamiferos, dividido em cinco secções : a cabeça, a columna vertebral, a caixa thoracica, a bacia e os membros.

A cabeça, que protege os órgãos superiores da intelUgencia e é a sede anatómica dos sentidos especiaes, divide-se em duas porções: o craneo e a face. Os ossos que constituem pelo seu agrupamento estas regiões são os mesmos e offerecem as mesmas relações em todos os ma- miferos. Descrevel-os-hemos ao estudar a osteologia humana.

A colwnma vertebral, que se estende desde a parte posterior da cabeça até aos membros abdominaes ou ao extremo da cauda, divide-se, quando completa, em cinco grandes regiões : a cervical, a dorsal, a hm- bo/r, a sagrada e a coAjbdal. A extensão d'estas regiões é muito variável. A região cervical, por exemplo, muito extensa na girafa, é excessiva- mente curta na toupeira; este facto depende, segundo Brehm, não do numero de vértebras que formam a região e que é de sete para todos os mamiferos, mas da maior ou menor distancia que as separa. A região dorsal, egualmente variável, é formada por um numero de vértebras que oscilla entre dez e vinte e três. As vértebras que formam a região lom- bar variam entre duas e nove, números que são também os limites de oscillação para as vértebras sagradas. Para as vértebras caudaes os nú- meros extremos são mais distanciados; ha mamiferos que teem apenas quatro d'estes ossos, outros, quarenta e seis.

A caixa thoracica é formada pelas costellas, ossos extensos e curvos que se articulam com a columna vertebral. Mais ou menos evidentes ou rudimentares, estes ossos existem em todos os mamiferos. No homem

1 O grande grupo doa vertebrados, caracterisando-se essencialmente pela exis- tência de ossos chamados vértebras, abrange cinco classes: mamiferos, aves, reptis, batrachios e peixes.

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e nos typos específicos que mais se lhe assemelham, articulam-se elles anteriormente com um osso chamado esterno; se essa articulação é im- mediata e directa, chamam-se as costellas verdadeiras, se ella se faz por intermédio de massas cartilagineas teem então o nome de falsas.

A bacia, região do esqueleto destinada a conter os órgãos de gera- ção, é uma facha ou cinto ósseo que na espécie humana occupa a parte inferior do tronco e onde os ossos dos membros abdominaes se articulam. O papel physiologico que ella representa e a disposição anatómica dos ossos que a formam, serão estudados quando faltarmos do homem.

De todas as partes do esqueleto são os membros as que maiores va- riações oíTerecera. Geralmente são em numero de quatro, dois anteriores ou superiores e dois posteriores ou inferiores; no entanto mamíferos ha em que os posteriores não existem ou existem apenas rudimentares, como nos cetáceos. Nos membros anteriores, a raiz ou porção escapular e a mão ou parte terminal variam consideravehnente. Assim em alguns mamíferos a clavícula é muito desenvolvida, ao passo que falta comple- tamente em outros. Os dedos existem ora dístinctos e separados, como na mão do homem, ora rudmientares como na pata do cão, ou ainda sol- dados como no casco do cavallo; o numero d'elles oscilla entre um e cinco. Com relação ao desenvolvimento, as variações dos outros ossos dos membros são egualmente notáveis.

MÚSCULOS

Os músculos, constituindo o que vulgarmente se chama a carne dos anímaes, são órgãos destinados principalmente a mover os ossos aos quaes se inserem ou prendem, quer directamente pelas suas fibras quer por mtermedio de tendões ou de fachas resistentes chamadas aponevroses. O modo de inserção varia segundo a direcção ou extensão do movimento e a força a empregar. A estructura ou conformação do esqueleto e o gé- nero de vida do animal determinam o numero e o desenvolvunento dos músculos. Assim, músculos que n'uns animaes faltam ou existem atro- phiados são n'outros extremamente desenvolvidos : os músculos do peito, por exemplo, muito volumosos e fortes nos mamíferos trepadores e voa- dores, existem atrophiados e reduzidos nos animaes que não carecem de empregar senão uma força diminuta na flexão do braço; os músculos da coxa, extremamente vigorosos nos corredores, são rudimentares na balea; os músculos da cauda, desenvolvidos no macaco que se serve d'este ór- gão como de um membro, não o são na maioria dos soUpides; os múscu- los da face, consideravehnente volumosos nos carniceiros que executam

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fortes e rápidos movimentos de mastigação, são notavelmente menos de- senvolvidos n'outras classes como nos ornithorincos.

Os músculos não teem como funcção única mover as alavancas ós- seas, posto que seja este o seu principal destino; muitos ha subtrahidos ao império da vontade e tendo por fim promover o movimento das par- tes molles do organismo; taes são os que produzem as contracções pe- riódicas do estômago, dos intestinos, das artérias, os movimentos da epi- derme, etc. Distinctos uns dos outros pela sua estructura anatómica tanto como pela sua finalidade physiologica, costumam dividir-se em duas ca- thegorias: voluntários ou estriados e involimta/rios ou lisos; somente o coração parece não conter-se n'esta classificação, porque sendo involun- tário é todavia, apparentemente ao menos, * um musculo estriado.

MOVIMENTOS

Posto que muito menos activos e extensos do que em outros géne- ros, nas aves por exemplo, os movimentos dos mamíferos são todavia importantes e variados.

Marcha. Sendo a estação vertical privativa do homem, elle mar- cha sobre duas extremidades. Acerca das apparentes excepções a este principio, escreve Brehm: «Os kangurus que se servem apenas das duas patas posteriores, não marcham, saltam; e os gerbos que collocam uma das patas posteriores deante da outra, estão longe de sustentar-se de pé.» ^ Todos os demais quadrúpedes terrestres marcham sobre quatro extremidades, lançando duas a cada movimento de progressão, geral- mente uma anterior e uma posterior do lado opposto; exceptuam-se o elephante, o hyppopotamo, o camello, a girafa e alguns antílopes, que na marcha se fixam sobre duas extremidades do mesmo lado.

Salto. O salto pode reahsar-se de dois modos differentes : ou o ani- mal, deixando inertes os membros anteriores, se fixa sobre os posterio- res que coUoca em flexão para distender bruscamente no momento da progressão, ou se sustenta sobre as quatro extremidades encurvadas, que estende simultaneamente no acto de se deslocar, O primeiro d'csles pro- cessos é peculiar aos mamíferos que saltam habitualmente; o segundo pertence aos que saltam quando attacam o inimigo ou vencem um

^ Dizemos apparentemente ao menos, porque a fibra cardíaca não tem uma dis- posição precisamente análoga á da fibra estriada no musculo voluntário. 2 Brehm, Merveilles de la Nature, pg. rx.

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obstáculo accitlental. A força de projeção do salto é muito variável nos mamiferos ; assim o esquilo é capaz de vencer uma altura de vinte metros, ao passo que o bodequim dos Alpes não ãttinge mais do que três metros; estas differenças estão subordinadas ao vigor muscular e ao pezo do animal.

Acção de trepar. Varia consideravelmente nas differentes espécies de mamiferos. Uns trepam auxiliando-se simplesmente dos membros, como os macacos do velho continente; outros, como os macacos da Ame- rica, recorrem ainda á cauda que enrolam nos ramos das arvores e da qual se servem como de corda em tensão; outros, como os ursos e as martas servem-se das unhas que fixam no córtex dos troncos; finalmente alguns mamiferos, como o homem, podem trepar abraçando o corpo vertical que devem percorrer com um grande dispêndio de forças. Brehm cita ainda um outro processo de trepar, commum aos cynocephalos, con- sistindo em uma verdadeira marcha ascendente ao longo das rochas, das montanhas ou dos troncos obhquos; é muito difflcil explicar este processo que se não distingue na apparencia da simples subida por um plano ligeiramente inchnado.

Voo. Muito menos extenso e poderoso do que nas aves, o voar dos mamiferos devera chamar-se antes vohtar ou voejar. A forma mais rudi- mentar d'este movimento é-nos offerecida pelos marsupiaes voadores, que no momento de saltarem a grandes alturas se servem de uma mem- brana estendida entre os membros, como de pára-quedas; é certo porém que a simples agitação d'esta membrana não bastaria a eleval-os da terra ou mesmo a sustel-os no ar. o morcego tem a possibiUdade, exce- pcional nos mamiferos, de percorrer o espaço pelos simples movimentos da membrana ahforme que se estende entre os membros e os dedos ex- tremamente alongados. O que Brehm escreve a este propósito, é digno de reproduzir-se : «Dir-se-hia, ao vel-os, que o seu voo é dos mais fáceis; voltam-se tão rápida e tão bruscamente que é necessário ser bom caça- dor para atirar-lhes no ar; ondulam, sobem e descem com rapidez. E no entanto, não é isto propriamente um vôo; elles não conseguem mais do que voltar-se pezadamente, não fazem mais do que arrastar-se pelo ar. O menor sopro de vento põe obstáculo ao vôo do morcego e a tempes- tade impede-o completamente, o que, de resto, se comprehende facil- mente. A membrana ahforme representa uma superficie atravez a qual o ar não passa como atravez a aza das aves. Para erguer-se o animal le- vanta um pouco a aza, mas o pezo sollicita-o e tende a fazel-o descer; baixando a aza, eleva-se, mas levantando-a, desce; por isso não faz mais que voejar.» *

1 Brehm, Obr. cif., pg. x.

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Natação. Com raras excepções, os mamiferos teem a proprie- dade de nadar ou de poderem ao menos sustentar-se por algum tem- po á superfície d'agua. Muitos mesmo, entre elles alguns marsupiaes e desdentados, vivem na agua; os que porém, merecem justamente o nome de aquáticos são os cetáceos. A respiração d'estes mamiferos, a que alguns naturalistas chamam peixes com mamas ou peixes sem guelras, faz-se no ar; para isso elles abandonam de espaço a espaço o seu meio habitual lançando parte do corpo na atmosphera d'onde retiram os ele- mentos gazosos indispensáveis ás combustões orgânicas.

A maior ou menor difflculdade da natação depende essencialmen- te da estructura anatómica dos membros na sua parte terminal. O casco é impróprio para a natação, especialmente quando indiviso. A mão é menos imperfeita sem que possa todavia conceder-se-lhe os foros de órgão adequado á natação. Os melhores nadadores são indiscutivehnente os animaes cujas patas teem entre os dedos uma membrana elástica que os liga sem os soldar. A pata torna-se n'estas condições um verdadeiro remo, porque a membrana uma vez distendida pela separação dos dedos, offerece uma larga superfície de resistência ás camadas liquidas. Nos ce- táceos os membros posteriores são substituídos por uma cauda achatada, membranosa e resistente fazendo as funcções de barbatana.

Como justamente observa Brehm, e é fácil de prever, estas diífe- renças na estructura anatómica importam diflTereriças correlativas no modo de executar o acto. Assim é que os animaes de patas, como o cão ou o cavallo, por exemplo, nadam como que fazendo marcha violenta com pre- domínio dos movimentos verticaes dos membros; os que possuem entre os dedos a membrana natatoria, agitam-se na agua á maneira dos patos approximando e separando alternativamente os membros no sentido hori- sontal; aquelles emfun que, como os cetáceos, se servem de barbatanas, executam a natação por movimentos de lateralidade d'esses órgãos, des- lisando com assombrosa rapidez nas massas d'agua.

APPARELHO E FUNCÇÃO DIGESTIVA

O apparelho digestivo, mau grado as diíferenças importantes que apresenta de ordem para ordem, pode todavia considerar-se fundamen- talmente o mesmo: um tubo membranoso aberto nas duas extremidades e destinado a receber na sua cavidade os alimentos a que a funcção di- gestiva por actos physicos e chimicos fará experimentar uma elaboração especial.

A hocca, abertura anterior do tubo digestivo destinada a receber os

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alimentos, é uma cavidade onde reside o órgão de gustação ou lingim. Pode ser ou deixar de ser guarnecida de dentes, órgãos que executam o acto mechanico da mastigação. Alguns mamiferos, como o tamanduá, são inteiramente desprovidos d'estes órgãos; outros ao contrario, como os golphinhos, possuem mais de duzentos. Os dentes dividem-se em incisi- vos, caninos e molares; os incisivos dividem os alimentos, os caninos di- laceram-os e os molares trituram-os. Os dentes pela sua conformação indicam d'um modo claro o género de alimentação de um mamifero qualquer, o que a seu turno revela a disposição e forma das vísceras mais importantes; por isso o celebre naturalista Cuvier pretendia que por um dente seria em muitos casos capaz de reconstruir completamente o animal a que tal órgão pertenceu.

Á bocca segue Immedlatamente nos mamiferos um tubo de calibre uniforme que na sua porção de origem se chama pha/rynge e na parte terminal mais visinha do estômago tem o nome de esophago. O acto pelo qual os alimentos passam, por esta região, da bocca para o estômago, é o que se chama deglutição.

O estômago que succede ao esophago, é uma bolsa membranosa di- latavel, de paredes mais ou menos finas e resistentes onde os alimentos se demoram para experimentar a digestão gast/rica. Nos anlmaes que nvtninam, Isto é que não podem digerir os alimentos sem os fazerem passar, depois de Ingeridos, novamente á bocca para soífrerem uma se- gunda mastigação, o estômago offerece particularidades de estructura que adiante descreveremos.

Ao estômago segue o intestino, tubo cylindrlco mais ou menos lon- go dentro de cuja cavidade a digestão entérica se executa. A extensão d'este órgão varia d'um modo considerável de mamífero a mamífero, su- bordinando-se ao género de alimentação do animal; curto nos carnívoros, é pelo contrario extremamente longo nos herbívoros de que chega a ter vinte e sete vezes o comprimento. O Intestino termlna-se por um ourlfi- clo chamado anus por onde os resíduos digestivos são expulsos.

Aos órgãos que nomeamos juntara-se outros denominados annexos do systema digestivo e que são : as glândulas saliva/res, o fígado, o pa/n- creas e o baço encarregados principalmente, como vamos vêr, de produ- zir os líquidos especlaes Indispensáveis á commutação digestiva dos ali- mentos.

A digestão, trabalho complexo no qual concorrem todos os órgãos do apparelho descrlpto, principia na bocca pela mastigação que divide os aUmentos e pela Involução d'estes na saliva, Uquldo segregado por glân- dulas especlaes. A saUva humedecendo os ahmentos facilita a deglutição, e este é o seu papel physlco ; além d'lsso, por um principio especial que contém chamado ptyalina goza da propriedade de attacar os alimentos

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feculentos transformando-os em glycose, e este 6 o seu destino chimico e physiologico.

Depois da digestão oral vem a digestão no estômago, consistindo es- sencialmente na acção commutativa de ordem chimica que sobre os ali- mentos exerce um liquido especial, chamado sueco gástrico, segregado por glândulas do mesmo nome que forram as paredes internas do estô- mago. O sueco gástrico attacando cliimicamente, por um principio espe- cial clmmdiáo pepsina, os alimentos azotados, como a carne ou branco do ovo, transforma-os em albuminose ou pep tonas.

Assim dissolvido e transformado o bolo alimentício passa a experi- mentar a digestão entérica ou intestinal. Os agentes d'esta nova elabo- ração, são o siícco entérico segregado por glândulas do mesmo nome que forram o interior da mucosa intestinal, a bile, produzida no fígado e o sueco pcmcreatico elaborado na glândula do mesmo nome. A acção do sueco entérico sobre os alimentos consiste em continuar no intestino a transformação, principiada na bocca, das féculas em glycose, emulsionar os corpos gordurosos e dissolver as substancias azotadas. A acção da bile, um pouco discutida ainda hoje, parece consistir em emulsionar ou redu- zir a divisões extremas as gorduras e ainda, segundo Claude Bernard, em activar, misturada com o sueco pancreatico, a digestão das substan- cias albuminóides principiada no estômago. Como os líquidos preceden- tes, o sueco pancreatico divide as gorduras, transforma a fécula em gly- cose e continua a dissolução das substancias azotadas que no estômago o sueco gástrico principiara. A sua acção hmita-se pois a continuar a dos agentes digestivos que primeiro do que elle attacam os ahmentos.

As funcções do baço são ainda hoje hypotheticas.

As substancias alimentares que escaparam á acção dos hquidos di- gestivos accumulam-se na região terminal do intestino d'onde, como re- síduos, são expulsas; é o que se chama defecação.

APPARELHO E FUNCÇAO CIRCULATÓRIA

Gompõe-se o apparelho circulatório em todos os mamíferos, de uma parte central chamada o coração e de uma parte peripherica dividida em: artérias, veias e capillares. Costumam-se nomear ainda como parte d'este apparelho, os lymphaticos, posto que o liquido n'elles contido não seja o mesmo que nos outros vasos.

O coração é o órgão destinado á propulsão do sangue; divide-se em duas porções : direita e esquerda, subdividindo-se cada uma em qua- tro cavidades, duas chamadas aurículas e duas que teem o nome de ven-

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triculús. Estas cavidades são separadas por válvulas ou pregas membra- nosas tendo o nome de tricúspide a do lado direito e de mitral a do lado esquerdo; estas válvulas fecham ourificios de communicação entre as aurículas e os ventrículos, impedindo que o sangue, uma vez depositado em qualquer das cavidades ventriculares, passe por movimento de re- fluxo ás auriculares correspondentes. O coração é interiormente forrado por uma membrana chamada endocardio e externamente por uma outra da mesma natureza com o nome de pericárdio.

As artenas são vasos contracteis que distribuem por acção centrífu- ga o sangue a todos os pontos do organismo. As suas paredes formam-se de três túnicas sobrepostas que são : a túnica externa de natureza elásti- ca, a media de natureza muscular e a interna elástica, dilatavel e resis- tente.

As veias são canaes destinados a conduzir ao coração por movimento centrípeto o sangue que serviu á nutrição dos órgãos. Nascem dos capil- lares por meio de radiculas que se reúnem em troncos successivamente mais volumosos. As veias são formadas, como as artérias, de três túnicas; d'estas porém, a media apresenta um numero muito menor de fibras mus- culares. Por este facto as veias gozam d'uma elasticidade inferior relati- vamente ás artérias, o que exphca o motivo porque depois d'um corte estes vasos se conservam abertos jorrando sangue, ao passo que aquel- les se fecham immediatamente.

Os capillares são vasos extremamente finos, estabelecendo commu- nicação entre as artérias e as veias. A exiguidade d'estes vasos fez com que se tenham comparado a cabellos ; o seu calibre porém, é muito me- nor, pois que o diâmetro dos mais grossos não excede nunca um centi- millimetro.

Os lymphaticos, também chamados chyliferos, são vasos contendo um hquido especial resultante da digestão, o chylo ou lympha, que por intermédio de dois troncos chamados canal thoracico e grande veia lym- phatica é lançado no sangue. O movimento que agita a lympha é o mesmo que impulsiona o sangue.

O sangue impellido para os vasos pela contracção intermitente do coração, vis a tergo, ahmenta em todos os pontos do organismo as tro- cas nutritivas indispensáveis á vida. Descreveremos, fatiando do homem, este importante phenpmeno da circulação que em todos os mamíferos se executa sensivehnente do mesmo modo.

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APPARELIIO E FUNCÇÃO RESPIRATÓRIA

Nos mamiferos a cavidade tlioracica que contem os pulmões, ór- gãos respiratórios, é separada da cavidade abdominal onde se alojam os órgãos digestivos, por um largo musculo chamado diaphragma. Os pulmões communicam com a larynge ou órgão da voz por um tul)o de- nominado trachea que se divide em dois ramos destinados aos dois pul- mões. A larynge é uma n'esta espécie.

A funcção respiratória consiste essencialmente n'uma troca de gazes á superfície pulmonar. O acido carbónico do sangue venoso é expellido e o oxigénio, ou gaz vivificante, introduzido na torrente circulatória.

APPARELIIO GENITAL

Nas fêmeas dos mamiferos os órgãos genitaes internos consistem essencialmente em dois ovários, duas trompas e um ou dois úteros. Os ovários, cujas formas são variáveis, conteem os óvulos que fecundados darão origem a novos animaes da mesma espécie. As trompas são tubos que communicam com a cavidade do útero e conduzem o ovulo ou óvu- los á fecundação. N'alguns mamiferos o útero é duplo e n'outros é bifldo.

As mamas, que segregam o leite indispensável á alimentação dos fdhos durante os primeiros períodos da vida, são em numero variável e subordinado á quantidade máxima de filhos que cada fêmea pode dar á luz n'um parto. A posição d'estes órgãos varia também; umas vezes são peitoraes, outras vezes abdominaes ou ainda inguinaes. Desenvol- vem-se durante a gestação e principiam a funccionar antes do parto.

No macho os órgãos internos de geração que mais importa conhe- cer, são os testículos onde se forma um hquido, o esperma, destinado á fecundação do ovulo. A destruição artificial d'estes órgãos nos animaes domésticos, importa para elles a perda de grande numero de caracte- .res que os distinguem exteriormente da fêmea; as formas, onde natu- ralmente deve predominar a hnha recta, tornam-se curvilíneas, arredon- dadas como as da fêmea; os músculos que são duros e fortes tornam-se flaccidos; a voz perde a tonahdade grave e a coragem própria do macho desapparece inteiramente.

mamíferos em geral 19

APPARELIIOS SENSORIAES

Os sentidos são em geral extremamente desenvolvidos nos mamífe- ros, o que não impede que, em alguns, um ou outro d'estes órgãos da vida de relação seja rudimentar ou nullo. Assim na toupeira os olhos en- contram-se atropliiados e nos cetáceos falta o apparelho de olfação, por- que n'elles o nariz é exclusivamente consagrado á funcção respiratória.

O apparelho auditivo é relativamente muito perfeito e offerece uma extrema complexidade.

O apparelho da visão é duplo. A funcção que executa, menos ex- tensa do que em outras espécies, nas aves por exemplo, é todavia im- portante e sufíiciente ás necessidades e aos hábitos mais sedentários dos mamíferos.

O gosto é em geral desenvolvido e o seu órgão, largamente ener- vado, varia de anúnal para animal na forma, na estructura e nos movi- mentos. Assim a língua umas vezes é fina, lisa e immovel, outras vezes longa, grossa, gozando do movimento em todas as direcções, outras ve- zes ainda franjada nos bordos e coberta de papillas.

O olfato é nos mamíferos mais desenvolvido que em qualquer outro grupo zoológico. Adquire em alguns, nas lebres e nos cães, por exem- plo, uma intensidade assombrosa.

O tacto, espalhado por quasi toda a superflcie epidérmica e mucosa, é geralmente desenvolvido n'esta espécie. Os pellos porém, e sobretudo as placas escamosas e córneas que cobrem a pelle d'alguns dos repre- sentantes d'este grupo, são obstáculos á sensibihdade táctil.

Descreveremos estes apparelhos na parte consagrada á anatomia hu- mana.

systema nervoso

Divide-se em duas grandes secções physiologicamente distinctas pela sua finalidade, posto que relacionadas : o grande sympathico, que preside á vida vegetativa ou inferior e o systema cerebro-espinhal que preside ás funcções especulativas e á vida superior de relação.

É nos mamíferos que esta ultima secção se apresenta mais desen- volvida, o que lhes permitte levar sobre todos os outros grupos animaes uma singular vantagem no ponto de vista da intelligencia e do senti- mento. A opinião vulgar que retira a este grupo como a todos os outros o poder intellectual e emotivo para tornal-o propriedade exclusiva d'uma

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espécie, o homem, é perfeitamente gratuita e insustentável. Reflexo de uma doutrina morta que faz da terra o centro do mundo e do homem o centro e o dominador de todas as coisas, esta opinião é inteiramente desmentida pelos factos. Deante d'elles e uma vez eleminadas todas as preoccupapões, é impossivcl deixar de reconhecer nos mamíferos, espe- cialmente n'aquelles que pela complexidade da sua estructura anatómica mais se aproximam da nossa espécie, um grão por vezes elevado de to- das as faculdades psycologicas. Nem tudo n'elles é instincto, como vul- garmente se afflrma. O desenvolvimento intellectual a que os conduzimos não raro pela domesticidade, os actos comphcados a que os obrigamos pelo ensino demorado e paciente, a comprehensão integral e a execução íiel das ordens que lhes damos, a memoria das pessoas e dos legares, os sentimentos de sympathia ou ódio que sabem manter, a nopão de pro- priedade e de justiça a que alguns se elevam, a abnegação individual de que são capazes, tudo prova a falsidade da opinião que lhes nega a ca- pacidade psychica, tudo demonstra que elles se ligam á espécie humana por laços e relações bem mais intimas do que geralmente se suppõe. Na descripção particular de cada espécie teremos occasião de voltar a este ponto importante, onde ha erros a corrigir e aíTirmações falsas a combater;

DISTRIBUIÇÃO GEOGRAPHICA

Do mesmo modo que ha regiões na terra sufficientemente caracteri- sadas pela existência de certas plantas que as habitam, que em nenhuma outra parte se encontram e constituem o que se chama flora d'um paiz, assim também as ha que se distinguem pela existência habitual de cer- tos animaes que lhes formam a fawrm.

Chama-se circulo de dispersão d'um animal ou d'uma planta a ária geographica dentro da qual a sua espécie habitualmente se encontra. O maior ou menor numero e extensão d'estes circules botânicos e zoológi- cos permitte dividir para cada espécie o globo em zonas, ou regiões dis- tinctas.

Se exceptuarmos os mamíferos aquáticos que podem encontrar-se em todos os pontos da vastíssima extensão dos mares, diremos com se- gurança que o circulo de dispersão para os indivíduos d'este grupo era re- lação aos de outros grupos de vertebrados, é extremamente limitado e res- tricto.

Estas regiões ou zonas são três : a polar árctica, a temperada e a tropical; cada uma é ainda dividida em outras zonas de menor extensão, caracterisadas pelo notável e constante predomínio de espécies determi-

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nadas. A riqueza zoológica de cada uma das três zonas principaes que nomeamos, está longe de ser. a mesma; varia no sentido crescente se- gundo a ordem por que as deixamos expostas.

Tendo de indicar para cada um dos géneros, das espécies e varieda- des que formos estudando, a sua distribuição geographica, dispensamo- nos de expol-a n'este logar, o que certamente se tornaria monótono e de uma utilidade muito contestável.

DISTRIBUIÇÃO GEOLÓGICA

A divisão dos animaes no globo não foi sempre análoga á dos nos- sos dias; além d'isso, muitas espécies que hoje não existem, viveram nos períodos antehistoricos, como o demonstram os esqueletos descobertos nas explorações paleontologicas. Por isso não deve confundir-se a distri- buição geographica que se faz por zonas ou regiões e se refere á actua- lidade com a geológica que tem logar por epochas e diz respeito aos pe- ríodos prehistoricos. Os mamíferos pertencem na fauna paleontologica aos últimos períodos ou epochas geológicas. Segundo Brehm as espécies fos- seis que d'elles conhecemos são : vinte de simeanos, vinte de cheiropte- ros, duzentas de carniceiros, trinta de marsupiaes, cem de roedores, qua- renta de desdentados, cento e cincoenta de multiungulados, sete de solipedes, cento e vinte de ruminantes, sete de pinnipedos e cincoenta de cetáceos.

COSTUMES E REGIMEN

O género de vida de cada mamífero, como de todos os animaes, subordina-se naturalmente a duas ordens de factores: as suas aptidões physiologicas, factor interno, e o meio em que vivem, factor externo.

Logar habitado. Os mamíferos podem habitar a agua, o ar ou a terra. Este ultimo logar é todavia aquelle em que a maioria d'estes ani- maes se encontram; é também ahi que vamos achar as espécies mais bem dotadas sob o ponto de vista da elegância e da correcção artística das formas. Os mamíferos aquáticos, como a phoca, são disformes e de assombrosas proporções; os que vivem no ar, ou antes ahi se podem manter mais ou menos diíTicilmente pelo vôo, como o morcego, são tam- bém mal conformados, d'uma apparencia repugnante; na terra se en- contram os exemplares e typos de nobreza, como o caVallo, o veado, o leão, o touro, algumas raças de cães, etc.

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Influencia do meio. É absolutamente incontestável a influencia que sobre o animal exerce o meio que elle habita ou o grupo das condições cósmicas que o cercam. Esta influencia não se limita a modificar as gran- des linhas geraes de organisação, dando a aza ao que vive no ar, a bar- batana ao que habita a agua, a mão ou a pata armada ao trepador, etc; vae mais longe, exercendo-se em mil acções secundarias, que no animal se traduzem por cambiantes anatómicas e physiologicas de uma apreciação por vezes diflicil. Nos mamíferos a cor do pello é uma d'essas cambiantes, cuja importância, realmente grande, passou muito tempo desapercebida. A cor d'estes animaes, sendo geralmente a do meio em que vivem ou an- tes dologar que habitam, a terra, as arvores, os rochedos, permitte-lhes no attaque approximarem-se da preza sem serem descobertos e na defen- siva escaparem aos seus naturaes inimigos que os não distinguem do solo ou da vegetação visinha. Mamíferos ha que mudara mesmo durante o anno de pello, segundo a estação que altravessam; assim a rapoza do norte, branca como a neve durante o inverno, torna-se no estio da cor parda- centa dos rochedos. A cor varia ainda segundo o animal se expõe du- rante o dia ou a noite; assim o cinzento pertence aos animaes nocturnos e as outras cures aos diurnos.

Sociabilidade. A sociabilidade pertence sem contestação á maioria dos mamíferos. Os sentimentos de sympathia reunindo naturalmente os indivíduos de uma mesma espécie e a necessidade de se reforçarem no attaque ou na defeza contra os inimigos, laes são os factores capitães das associações dos mamíferos, por vezes dignas de observação e minu- cioso estudo. E não se creia que são simples ajuntamentos provisórios, as uniões que entre si estabelecem; são, pelo contrario, verdadeiras socie- dades em que a divisão do trabalho ou diíTerenciação de funcções principia a esboçar-se como nas primeiras e mais imperfeitas sociedades humanas.

A differenciação de funcções sociaes imphca necessariamente uma direcção e um plano. É o que nos grupos dos mamíferos se instincti- vamente comprehendido na adopção d'um chefe ou director da commu- nidade a quem compete dispor os combates, organisar as defezas, pre- venir as luctas, n'uma palavra, garantir a existência dos subordinados. O critério que preside á selecção d'esse chefe, varia de espécie a espécie; umas vezes é a força muscular provada por victorias successivas nos mais cruentos combates, outras vezes a sagacidade, a prudência, a dedica- ção. N'estes agregados sociaes rudimentares desponta o altruismo, ou sentimento sympathico que conduz á dedicação do mais forte pelo mais fraco, traduzida principalmente no sacrifício espontâneo do chefe pela communidade, e os elementos emocionaes e instinctivos da sohdariedade que leva á união tanto mais intima e absoluta quanto maior é o perigo de todos e de cada um. Sobre este ponto tão curioso pelo lado descriptivo,

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como importante pelo ensinamento que encerra para a questão da origem tios sentimentos sociaes, escreveu Espinas, sob o titulo Sociedades ani- maes, um livro justamente recommendavel.

O que deixamos dito não exclue nos mamíferos o isolamento como estado normal; muitos ha que vivem constantemente separados e em lu- cta permanente com todos os outros.

Vida diurna e noctmma. Nem todos os mamiferos aproveitam o dia para as manifestações activas da existência e a noite para o repouso. Ha-os que invertem esta ordem, reservando o dia para o somno e a noite para a expansão das forças; outros ainda sem períodos fixos de repouso ou de actividade, servem-se indistinctamente de qualquer hora para a manifestação ou para a reparação das energias funccionaes.

A maioria dos mamiferos pertence á classe dos diurnos, isto é, dos que se agitam nos conílictos da vida enjquanto o sol nos illumina, para repousarem durante a noite. Na cathegoria dos noctwrnos que se servem da noite para a vigília e do dia para o somno, como na dos crepuscula- res que sahem do repouso á hora em que a luz do sol principia a desap- parecer, entra um numero menor de indivíduos. Á classe dos que não teem período certo de vigiUa ou de somno pertencem os mamiferos aquá- ticos.

Regimen. Sob este ponto de vista todos os mamiferos se dividem em herbívoros, carnívoros e omnívoros, segundo teem uma alimentação exclusivamente vegetal, exclusivamente animal ou combinam os dois gé- neros, como faz o homem. A estas diíTerenças de regimen andam hgadas diíferenças consideráveis na conformação do tubo digestivo, bem como na maneira de procurar os alimentos. Os carniceiros vivendo da caça dada aos outros animaes, mamiferos, aves, peixes, moluscos, etc, são dotados de longos dentes caninos e muitos de garras extensas e agudas; não necessitando as carnes de uma digestão tão demorada como a dos ve- getaes, o intestino d'estes indivíduos é sensivelmente menor que o dos herbívoros. Estes, ao contrario, teem largos e vigorosos molares, não possuem garras e o seu intestino é de um extraordinário comprimento. O homem que é omnívoro, não possue bem accusado nenhum dos cara- cteres dos grupos anteriores: nem tem os molares vigorosos do herbí- voro nem os caninos agudos e extensos do canivoro; o seu intestino nem é tão curto como o dos carniceiros nem tão longo como o dos herbívo- ros; flnahnente os seus órgãos de prehensão são differentes dos de to- das as outras espécies.

Pela domeslicidade consegue-se que alguns carnívoros, o gato e o cão principalmente, se habituem a uma alimentação mixta como a do homem; estes hábitos mantidos atravez de gerações inteiras e succes- sivas vão promovendo lentamente n'estas espécies a perda dos cara-

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cteres que no estado natural ou selvagem os distinguem d'outras espé- cies. Alguns carnívoros, como as hyenas, ás carnes palpitantes da presa preferem os tecidos do cadáver cm decomposição. Este facto imprime á sua organisação disposições especiaes que mais tarde estudaremos.

Ilybernaçãó. Consiste n'um somno que dura um inverno inteiro e durante o qual o mamífero se não alimenta. Este facto curioso e na ap- parencia incomprehensivel, explica-se todavia facilmente. Ao approximar do inverno, o animal hybernante procura um retiro onde se esconde, en- rola o corpo e cae, segundo a phrase consagrada, n'uma lethargia pro- funda, em que as funcpões orgânicas diminuem consideravelmente de in- tensidade. A circulação é lenta, quasi imperceptível, a respiração super- ficial e espaçada, os movimentos voluntários, nullos. As funcções assim retardadas implicam para o animal um dispêndio minimo para occorrer ao qual basta somente a gordura, verdadeira reserva e única receita or- gânica durante o somno. A nutrição, muito pouco intensa, faz-se pois por autophagia, gastando o animal os seus próprios tecidos. na approxi- mação da primavera termina este estado de morte apparente; então o animal, cedendo ás sollicitações sexuaes, principia uma vida activa, preoccupada, verdadeiro renascimento. A alimentação principia n'esta epocha á custa de provisões accumuladas no estio anterior.

Reproducção. Na vida dos mamiferos ha sempre a períodos fixos do anno, diíferentes para cada espécie, uma epocha durante a qual as necessidades sexuaes vivamente despertadas impellem o animal a um grande movimento, a uma excitação que não raro contrasta cora os seus hábitos sedentários e monótonos. N'esta quadra, a mais curiosa da vida dos mamiferos, exuberância de actividade e modificações profundas de caracter transformam singularmente o animal. O instincto genésico desperta n'elle sentimentos e emoções de que não dá, durante outras epochas do anno, uma prova única; ao mesmo tempo qualidades que normalmente o caracterisam, apagam-se ou mesmo desapparecem d'um modo completo. O amor, a extremada soUicitude pela fêmea a que habi- tualmente se conserva estranho, o ciúme que o torna perigoso para os animaes da mesma espécie, taes são os sentimentos pecuhares ao macho durante esta epocha. Os instinctos da maternidade, uma notável preoc- cupação de encontrar e dispor o logar apropriado á parturição e, depois d'esta, a sollicitude proverbial pelos filhos, caracterisam a fêmea durante o mesmo período. As modificações no que podemos chamar o caracter dos animaes, são profundas durante o cio ou exaltação genésica; os mais timidos tornam-se de uma assombrosa coragem e os ferozes, pelo contra- rio, apresentam-se como que suavisados.

As relações entre os dois sexos não se fazem d'um modo per- feitamente casual e arbitrário, antes se subordinam ao que os mo-

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dcrnos zoologos chamam a selecção sexual, dependente, segundo Darwin, da «lucta entre indivíduos d'um sexo, geralmente machos, para se assegurarem da posse do outro sexo.» * A este propósito diz Ilseckel: «Em quasi todas as espécies de animaes, o numero de individues dos dois sexos é mais ou menos desigual, havendo um excedente ora de ma- chos, ora de fêmeas; na estação do cio ha ordinariamente lucta entre os rivaes para a posse do outro sexo. Sabe-se com que ardor, com que en- carniçamento o combate se trava, particularmente entre os animaes d'or- dem superior, os mamíferos e as aves.» ^ A consequência flnal d'cstas luctas é o desprezo da fêmea pelos vencidos e a sua dedicação pelos vencedores.

O numero de filhos dados á luz n'um parto varia entre vinte e quatro, cifra máxima, e dous ou um, como acontece na espécie humana e nas espécies superiores. É geralmente sabido que os animaes de pe- quenas dimensões são extraordinariamente mais prolíficos que os de ele- vada estatura. O periodo de gestação varia também entre nove mezes e três semanas, e a cUe é proporcional o tempo dedicado pela mãe ao en- sino e educação dos filhos.

A dedicação e soUicitude